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O inferno são os outros

É com essa frase de Sartre descontextualizada que começo a falar de inferno. E mais, do “não atribua aos outros um inferno que é seu.”

Não raro vejo gente dizendo que ateus/agnósticos/céticos/deístas/panteístas/qualquer teísta de crença diferente  vão para o inferno.
Isso chega a ter graça, ser ameaçado de ir p/ um lugar que nem se acredita existir. Tipo assim “você vai p/ o mundo inferior, morar com Hades” haha sério?

Antes de me exorcizarem, vou contar um pouco da história do demônio/diabo/Lucifer/cão/sujo e afins:

Na visão monista, deus é o criador de absolutamente tudo, sendo bom ou mau.
Em VI aec encontramos Zoroastro, um profeta persa com visão dualista. Este indivíduo escreveu sobre Mazda e Arimã , príncipe da luz e das trevas, respectivamente.
Em uma visão semi-dualista há um deus soberano mas que não é o “culpado” pelo mal.

O judaísmo é fortemente influenciado pela demonologia, angelologia e escatologia do zoroastrismo. Teve assim aa origem do nome “satan”, que significa “o adversário” “o acusador”, uma força poderosa oposta a Yaweh. Ele não é um anjo caído, é alguém designado a acusar os pecados. O inferno, sheol, é um lugar de não existência, não consciência, e não um lugar de punição. Não é eterno.

No cristianismo Lúcifer apareceu como sendo um querubim, o mais belo, o portador da luz, a estrela da manhã. Ele quis ser como deus e foi por isso exilado dos céus,tornando-se um anjo caído. Esse conceito deriva do satã judaico e do conceito de demônio grego, mas não é o mesmo que estes. O inferno é quase sempre representado como um local de eterno tormento e sofrimento.

No islamismo Iblis não era um anjo mas um Jinn, que tinham livre arbítrio como humanos. Ele recusou-se a ajoelhar perante deus e por isso foi condenado. O inferno é também uma condição eterna, com sete portões de entrada, onde há muito sofrimento.

Lúcifer, já denominado também como diabo, era considerado um ser que pode assumir a forma que desejar (ou seja,cuidado que ele pode estar do seu lado); aparência física derivada de figuras divinas da antiguidade,não necessariamente más, o reino sendo muito parecido com Tártaro, onde vivia Hades irmão de Zeus. Era o mundo inferior (inferno=inferus, que está por baixo) onde havia cérberos, humanóides ,monstros, demônios…  O conflito com deus deriva do Zoroastrismo.

Durante a Idade Média ele ganhou a aparência de asas de morcego,pata de bode,chifres,associação coma cor vermelha… aqui uma lista dos 10 demônios que atormentavam o povo da Idade Média
E nessa época também começou a “demonização” dos deuses dos outros. Qualquer um que não fosse Yaweh era demonizado.

Lembremos da Santa Inquisição em 1299,iniciada por Gregório IX com o objetivo de punir os hereges que não seguiam o cristianismo. Eles eram considerados possuídos e, por isso, eram levados a cometer atos heréticos.
Com o iluminismo o demônio fica em baixa, pelo aumento das explicações científicas e pelo antropocentrismo.

Atualmente há variância no que significa inferno e demônio para diferentes crenças. Algumas pregam como algo real, um lugar e um ser realmente palpáveis, outras como um lugar real mas não como dizem ser (com fogo e tal), e outras dizem ser apenas algo figurativo, uma metáfora para explicar melhor uma situação de “culpa eterna”.

Para algumas pessoas é importante haver a figura de deus e do demônio para personificarem o bem e o mal, de modo a tornar próximo das pessoas os limites  da ética e da moral. Como se, caso fosse retirado, as pessoas perderiam limites (já que não haveria um deus p/ julgar nem um inferno como condenação) e cometeriam crimes hediondos.

Não vejo essa sequencia ausência de deus> niilismo. Culturalmente já temos contato com uma série de valores morais, tradições e costumes. Não só a instituição religiosa faz coerção, a família, por exemplo, também faz (sendo influenciada ou não pela religião), o fato de uma pessoa não se guiar pelo código de moral da religião não necessariamente a fará virar niilista, pois a coerção, os conceitos de moral (mesmo que os religiosos, por já estarem incluidos na cultura) continuarão externos ao indivíduo, mesmo que este não veja esse externo vinculado a um ser superior (ou que esse ser seja um diferente).
Ou seja, caso fosse retirado (é estranho pensar nisso como algo repentino), as pessoas não necessariamente virariam niilistas, por já estarem inseridas num determinado contexto com exigências e regras externas ao sujeito, ainda sob influência da religião (influencia que não pode ser retirada, muito menos imediatamente como pensam alguns).

Nos últimos tempos tiveram que começar a dizer que “o deus é o mesmo”, creio eu que para minimizar a discriminação. Não, o deus não é o mesmo, nem em história, nem em promessas. Mas isso não significa que os deuses dos outros podem ser demonizados e não é nada respeitoso nem digno sair por aí ameaçando quem não tem nada a ver com isso ao inferno pela crença diferente ou não crença. Não por essas pessoas terem medo ou algo assim, e sim que,pelo fato de não acreditarem, certamente elas não estão a fim de perder seu tempo ouvindo pregação. Afinal,modificando Sartre, o inferno é dos outros. (:

Hades approves this post =D

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