Category Archives: ciência

Até onde pode ir a obediência?

Uma pessoa considerada normal pode matar outra por pensar que está “apenas” obedecendo regras? Poderia a obediência a uma autoridade fazer alguém chegar a isso? Já se perguntaram por que em certas situações (como ditaduras ou guerras) pessoas comuns- aquelas que levam os filhos à escola, tomam sorvete na praça, amam brincar com o cachorro- podem torturar e matar sob o comando de uma autoridade?

Foram mais ou menos estas as perguntas de Milgram (1933-1984)  e, inspirado pelos acontecimentos da Alemanha nazista e o holocausto,  conduziu   um dos experimentos mais polêmicos da Psicologia, que buscava mostrar ser possível que qualquer pessoa submetida à pressões de autoridades poderia agir como um psicopata.

Experiência retirado daqui:
1 Um voluntário apresentava-se para participar na experiência, sem saber que seria avaliado na sua capacidade de obedecer a ordens. Era colocado no comando de uma falsa máquina de infligir choques;
Os sujeitos eram
encarregues num suposto papel de “professor” numa experiência sobre “aprendizagem”.
2 A máquina estava ligada ao corpo de um homem mais velho e afável, que era submetido à uma entrevista numa sala ao lado. O voluntário podia ver o homem mais velho, mas não era visto por ele;
3 O voluntário era instruído por um investigador a accionar a máquina de choques todas as vezes que a pessoa errava uma resposta. A intensidade dos choques aumentava supostamente 15 volts por cada erro cometido, desde 15 (marcado na máquina como “choque ligeiro”) até
450 volts (marcado na máquina como“perigo: choque severo”);
4 À medida que a intensidade dos choques aumentava a pessoa queixava-se cada vez mais até que se recusa a responder;
O experimentador ordena ao sujeito para continuar a administrar choques.”Você não tem alternativa, tem que continuar”;
Ilustrações: Edivaldo Serralheiro

65% das pessoas obedeceram às ordens até o fim e deram o choque pretensamente fatal.

Variações no procedimento Milgram (1974):

  1. Proximidade da vítima:
  • Se a vítima só podia ser ouvida, 65% dos sujeitos iam até ao limite.
  • Se houvesse contacto visual a percentagem baixava. Contudo, mesmo quando os sujeitos eram eles próprios a manter a mão do aprendiz sobre uma placa metálica, 30% iam até aos 450 volts.

2.  Proximidade da figura de autoridade:

  • Quando o experimentador dava as instruções pelo telefone só 20.5% continuavam a obedecer;

3.  Legitimidade da autoridade:

  • Quando a experiência era conduzida num edifício normal de escritórios a obediência caiu para 48%;

4.  Influências sociais:

  • Se estivesse presente um segundo sujeito que obedecia, a obediência chegava aos 92%. Se o outro recusava, somente 10% dos sujeitos chega aos 450V.

links com vídeos do experimento:
legendado em espanhol
ao que parece, este foi realizado em 2010
audio em espanhol
 audio em inglês

Milgram realizando o experimento

 

Penso que essa experiência nos é útil p/ mostrar como um arranjo apropriado das contingências podem levar pessoas normais a agirem de forma muito diferente do seu comum por estarem a obedecer a autoridades. E pensemos: claro que dificilmente saem por aí dando choques reais em quem responde errado mas, e no cotidiano, será que muitas vezes as pessoas não agem de forma que iria contra seus “princípios” por obediência? E em momentos de revolução, ditadura, guerras, repressão? O que somos capazes de fazer sob determinadas contingências?

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Mais um charlatanismo quântico

falarei sobre esse post aqui no site da psicóloga Marisa Lobo.
Vamos aos comentários:
a começar o título de efeito:

ISTOÉ| Cientísta Polonês Mostra que Deus existe- e ganha Prêmio.

Sabemos que existência de deuses é extremamente debatida ao longo da história da humanidade. Então colocar “cientísta” “mostra” e “deus existe” é um título bem atrativo. Colocar um “ganha prêmio” é como se fosse uma confirmação de que ele está certo “afinal,ganhou até prêmio!”.

“Através de leis da física e da filosofia, pesquisador polonês mostra que Deus existe e ganha um dos mais cobiçados prêmios”

Não entendi se foi dito separadamente “leis da física” e “filosofia” ou junto “leis da física e da filosofia”, se foi o primeiro, filosofia e física tratam de assuntos diferentes e, quando falamos do método científico, não são as questões filosóficas que são usadas como prova, elas são usadas para discutir os métodos, mas não são a prova, ou seja, é algo anterior à ciência. Se foi o segundo, bem, leis da filosofia? rly?
Sem contar que deus é discutido em filosofia não em física (como querem algo imaterial sendo discutido por… Física?)

“Ocorre, porém, que Keller não é um menino, mas sim um dos mais conceituados cientistas no campo da cosmologia e, igualmente, um dos mais renomados teólogos de seu país.”

esse “um dos mais conceituados” pode servir p/ apresentar o cidadão e, além disso,  levar o leitor a pensar “nossa, então ele sabe do que tá falando!”.

 “O resultado material é que na semana passada Keller recebeu um dos maiores prêmios em dinheiro já dados em Nova York pela Fundação Templeton, instituição que reúne pesquisadores de todo o mundo: US$ 1,6 milhão.”

Também ajuda a mostrar que ele só pode estar dizendo algo relevante, afinal, ninguém dá tanto dinheiro a outra pessoa por pouca coisa…

“O que é a “Teologia da Ciência”? Em poucas palavras, ela se define assim: a ciência encontrou Deus.”

Onde? não vi nenhuma publicação científica me mostrando isso (já que ele fala em nome da ciência acho que é onde eu deveria encontrar tal informação)

“. De volta agora à questão da formação do universo, há perguntas que a ciência não responde, mas o universo está aqui e nós, nele. Nesse “buraco negro” entra Deus.”

Não saber hoje responder uma pergunta não significa que nunca saberá. E “nesse buraco negro entra deus” não é falácia do deus das lacunas? há um certo perigo em utilizar isso quando se fala de ciência…
Deus das lacunas é uma falácia lógica e uma versão teológica do argumento da ignorância. Caracteriza-se por responder questões ainda sem solução com explicações, muitas vezes,sobrenaturais, que não podem ser averiguadas” by wikipedia

“Essas questões, sem respostas pela física, encontram um ponto final na religião – ou seja, encontram Deus.”

Não sei uma resposta FÍSICA então foi deus? e qual deus é esse? o dele? que coincidência!

” Keller afirma a possibilidade de encontrarmos Deus nos conceitos da física quântica, onde se estuda a relação dos átomos.”

Mais um querendo achar deus escondido entre léptons e quarks no fantástico mundo quântico…  aqui falei do charlatanismo quântico, esse é mais um.
“Dependendo do pólo de atração, um determinado átomo pode atrair outro e, assim, Deus e ciência também se atraem. “E, se a ciência tem a capacidade de atrair algo, esse algo inexoravelmente existe”, diz Keller.”

Não entendi pq a atração entre dois átomos é comparada a deus e ciência.

Lembremos que esse deus defendido muito provavelmente é um deus, se não o judaico-cristão, um entendimento próximo ao cristão. Pq será que é justamente esse?
pq os outros “é claro” que não existem? ou pq esse, no mundo ocidental, é o mais conhecido e,assim, seria muito mais aceito? e se fosse Krishna? e se fosse Allah? Não iria ter a mesma aceitação, não é?

Nessa lenga lenga toda NADA é realmente explicado. Na verdade, tantos outros já lançaram essa falácia do deus das lacunas, só não ganharam esse dinheiro todo pq não usaram um rótulo de cientista p/ escrever um livro.

Vale lembrar; nem tudo que um dito cientista fala pode ser jogado na conta da ciência. Por exemplo, ele ser cristão não interfere em nada na condição de cientista. Ele pensar que deus existe se refere à fé dele, mas isso não significa que “a ciência disse que existe” e sim ele, enquanto crente. Mesmo caso da psicóloga dona do site. Ela ser cristã é uma coisa e ser psicóloga é outra, e as duas, eticamente, não deveriam se misturar na prática terapêutica.  Não são coisas excludentes mas também não são coisas que vão se mesclar.

Portanto, queridos, alguém dizer que é cientista não significa que “sabe do que tá falando” ou “tudo o que fala é relativo à ciência”, p/ o que ele diz quando se trata de ciência ser aceitável é preciso que ele mostre evidências para tal, coisa que ele não fez.

AAAh, quem é esse Keller? procure no google que só vai achar referência aos trabalhos do mesmo em sites brasileiros. Pq o nome dele é Heller. Sim, ninguém que reproduziu a matéria sequer foi atrás de saber a veracidade da mesma.

“The John Templeton Foundation, which awards grants to encourage scientific discovery on the “big questions” in science and philosophy, commended Professor Heller, who is from Poland, for his extensive writings that have “evoked new and important consideration of some of humankind’s most profound concepts.”” http://www.nytimes.com/2008/03/13/science/12cnd-prize.html?hp

Errr… onde tá o “premiado por mostrar que deus existe”? eu não achei…
Pelo visto o próprio Heller teve sua fala deturpada. No caso o charlatanismo parece nem ter partido dele e sim da IstoÉ, que foi quem divulgou a matéria. Ou seja, pode ser que eu tenha dito tudo isso sobre algo manipulado pela revista, não sendo exatamente esses os argumentos utilizados por Heller.

Que “coisa feia” mentir p/ as pessoas dessa forma! por isso ceticismo é importante inclusive p/ crentes. Por mais que possa ser agradável ver uma afirmação como a da matéria, é muito melhor ir atrás de saber até onde ela é verdadeira antes de divulgar (coisa que a psicóloga não fez).

Ciência nas escolas

Estava outro dia a conversar e ler sobre o ensino de ciência e o quanto isso influencia na visão que as pessoas têm do assunto.

Eu, por exemplo, tive um tanto de sorte. Desde criança bem pequena fui incentivada à curiosidade do “como funciona” e também a desenvolver a coordenação motora. Na escola muitas vezes havia mostras de ciência, trabalhávamos quase o ano todo para isso, e em aulas aprendíamos na prática como várias coisas acontecem. No ensino médio tive a sorte de ter ótimos professores, que fizeram o máximo com o mínimo que tinham disponível. E hoje estou aqui, fazendo Psicologia mas desejando viver 300 anos p/ ter tempo de fazer mais coisas, tendo o estudo como um dos maiores passatempos.

Mas mesmo tendo acesso às mesmas coisas que eu, sempre vi colegas com imenso desprazer quanto a esses assuntos. Aliás, escola e estudo são sempre chamados de chatos e inúteis, a coisa piora quando os alunos recebem assuntos que nunca fazem sentido, que são completamente deslocados das vivências, que não se mostram realmente úteis.
Uma parte vem do não incentivo dos pais. Minha mãe bem sabe o quanto eu questiono a tudo. Quantos pais querem filhos com opinião própria? não é p/ qualquer um lidar com isso. Mas os que o fazem não devem imaginar o bem que promovem.
Pessoas que não foram incentivadas podem aprender a serem curiosas na escola, pq a escola pode ensinar com êxito muito do que os pais não ensinam. Entretanto a ladainha se repete: quantos professores desejam alunos que questionem? questionar é ver como igual, ali, do lado, um aprendizado mútuo. Quantos professores querem admitir que podem aprender com seus alunos? felizmente passei a ver mais professores assim com o passar do tempo. E assim se repete o mantra de pessoas alheias ao aprendizado como um todo, achando tudo muito chato, tudo muito sonífero, tudo muito difícil, tudo muito inútil.

Como achar legal se TODO mundo disser que é chato e fizer questão de que seja assim? como achar fácil e se dedicar quando se depara com professores colocando medo, exigindo coisas que não foram capazes de ensinar efetivamente? como ver utilidade se as coisas colocadas só são vistas dentro da escola e depois desaparecem?

 

Criticar e apontar defeitos é bem fácil, então qual a solução que proponho?
Vou partir da escola. Crianças adoram coisas “oooohh”, que tal vez ou outra mostrar algo na prática? coisas simples como mostrar como ocorre a erosão ou que o período de um pêndulo independe da massa. Crianças e adolescentes ficam entediados facilmente.

Isso mostra que se for p/ ficar 2 aulas só falando é melhor não falar pq não vão aprender e a culpa não vai ser deles: falta motivação. Alguns assuntos são muito densos, por isso filmes, músicas, brincadeiras, experiências ajudam no aprendizado. Já viram o Donald no país da Matemágica? é um ótimo exemplo. Qualquer um gosta de ter suas capacidades reconhecidas e quando isso acontece acabam por produzir ainda mais. Algumas vezes o que chamam de dificuldade de aprendizagem é somente uma falta de incentivo, falta de reconhecimento, desprezo das capacidades, tudo isso baixa a auto-estima e o aprendizado é completamente desmotivado.

Mas professores devem também estar motivados. Como fazer algo bem feito quando se tem que trabalhar em várias escolas p/ garantir um salário digno? Além disso há a questão de: como ser um bom professor se a formação do mesmo foi precária?

Ciência ainda é vista como coisa distante, que só um seleto grupo de “escolhidos” têm acesso, quase uma seita secreta.

Eles fazem algo e o povão só compra o resultado sem ser incentivado a perguntar o pq é daquele jeito. O rótulo de “cientificamente  comprovado” já serve p/ sanar qualquer mínima tentativa de ceticismo que possa haver. É preciso formar curiosos, pensadores, questionadores, céticos e não pessoas que sabem nomes, datas e fórmulas p/ provas e sequer sabem o significado disso. P/ quem, depois do 1º grau, não vai fazer algo relativo à ciência, artes, filosofia, matemática, não vai ser útil saber quem foi uma ou outra pessoa, mas a curiosidade, a vontade de ir além, o não aceitar só pq alguém falou que era daquele jeito permanecem e isso é o que diferencia uma sociedade que pensa de uma sociedade onde a maioria é ensinada a obedecer.

Quando se aprende ciência descobre-se que ela não é o poder absoluto, nem a última palavra, não depende da “afinidade pessoal” p/ decidir algo e que muda e DEVE mudar sempre, se renovar, que cientistas são crianças grandes querendo descobrir respostas para os mais loucos “porquês”.

E quando se descobre isso percebe-se que não é algo distante, que dá p/ fazer até no dia a dia, que podemos nos sentir parte disso. Se  as escolas conseguirem passar essas simples ideias eu ficaria satisfeita. Os talentos despertados dependem do ensino que recebem pois as pessoas só vão passar a se interessar de verdade quando descobrirem que é algo alcançável e mais, que pode ser divertido. Cientistas não são magos, remédios ou um GPS não surgem de milagres e sim como fruto de muito estudo. É justamente isso que, p/ mim e p/ muitos, torna tudo tão fascinante (mais que qualquer tentativa de explicação sobrenatural).

P/ ensinar ciência (como todos os outros componentes curriculares) é preciso paixão pela área, até pq, não tem como querer que os alunos se interessem por algo que o professor parece estar sofrendo p/ transmitir.

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mudanças: de visão, de ideia, de opinião.

Temos 3 alternativas: 1-Engessamos os pensamentos, atitudes, opiniões, e andamos por aí com as mãos nos ouvidos e lalalala não estou te ouvindoooo

2- Ficamos completamente volúveis, sem segurança, sem o mínimo de certezas, sem confiança alguma a ponto de, oh, wait, todos podem fazer algo contra mim a qualquer momento e, como não sei se o sol nascerá amanhã não posso planejar. Pode dar tudo errado a qualquer momento já que todo mundo pode mudar de ideia a qualquer hora!

3- aprendermos a equilibrar isso: que acertar é bom, que depois que erramos podemos aprender com essa experiência, que mudar de ideia não é ser traidor de nada, que reavaliar as atitudes é preciso.  Faxinas intelectuais são sempre bem vindas.

[behaviorism mode on]

Em nossa cultura erros comumente são punidos: com retirada da liberdade, numa nota baixa atribuida a uma prova, com gritos e/ou uso de força física, etc. Mas isso não ensina qual o certo, ou como fazer certo, e pode gerar respostas como raiva, depressão e baixa auto-estima.
É mais fácil e prático punir que ensinar o certo, mas quase sempre não é o mais eficaz.
Se tratássemos os erros como coisas que acontecem sempre e com todos, com menos aversão e rigidez, poderíamos passar a, ao invés de punir de alguma forma, guiar ao comportamento mais desejável tanto a nós quanto os outros.
mais aqui

P.e.: o sistema carcerário: grande parte das vezes só serve como punição, onde há a privação da liberdade. Ok, o que isso ensina? Nada. Muito provavelmente vão sair e cometer novos crimes. Comportamentos punidos não são esquecidos mas somente suprimidos podendo reaparecer quando longe do estimulo aversivo da punição. Exemplo: quando na presença de policiais, apresentar bom comportamento, fora disso, apresentar novamente comportamentos indesejáveis.
Estando presente um reforçador que utilize recompensas, mesmo que enquanto privados de liberdade, há um aprendizado eficaz e duradouro. Eles saberão que fizeram algo errado e têm a chance de aprender o certo (tendo oportunidade de, mesmo na cadeia, estudar, trabalhar, ter uma ocupação, gerar renda etc). Esse aprendizado poderá ser colocado em prática ao acabar a pena, não perpetuando a visão de que voltar ao crime seja a única coisa a fazer, pois o ambiente foi modificado.[behaviorism mode off]

p/ fechar:
“…é com nossas teorias mais ousadas, inclusive as que são errôneas, que mais aprendemos. Ninguém está isento de cometer enganos; a grande coisa é aprender com eles”.
K. Popper

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Comportamento supersticioso e wishful thinking

Você já reparou que algumas vezes nós pensamos em algo, como por exemplo: melhor não ir que num vai dar em coisa boa. E realmente acertou? O que é isso? premonição?
Você já se pegou fazendo certos rituais, como por exemplo dar pulinhos, não passar por certos lugares, usar a mesma peça de roupa em situações semelhantes pq essa peça deu sorte antes, ou fazer provas coma mesma caneta e afins?

O primeiro é chamado de wishful thinking, ou algo como pensamento guiado por desejo. O segundo é o comportamento supersticioso.

“Mas Jheh, eu acerto sempre nas premonições!”

Eu também! é comum eu estar com sono e não ir p/ alguma aula e depois descobrir que não teve aula (sempre brinco: antes de irem p/ a aula, me liguem p/ saber as previsões do dia). Mas isso não é premonição. Eu sabia que havia a chance de não haver aula, por exemplo. E nem sempre eu acerto, na verdade, as probabilidades são as mesmas. Se a gente para p/ pensar em todas as “previsões” que fazemos, vamos perceber que, aleatoriamente, acertamos umas e erramos outras tantas. Mas como o acertar é o que nós vemos como o desejável, acabamos esquecendo das vezes que erramos. Quantas vezes levamos guarda-chuva e não chove? e quantas vezes esquecemos e chove? Mas pq será que só lembramos das vezes que, com uma premonição, nós levamos o guarda-chuva e realmente choveu (enquanto os outros se molhavam) ou o contrário, todos levaram e nós não? Pq esse é o desejado. Nós queremos que as previsões estejam certas, então quando erramos nós descartamos.
A mesma coisa uma simpatia ou uma oração: umas vezes vai dar certo e muitas vezes não dar em nada, mas como queremos que dê certo a pessoa vai ou esquecer das vezes mal sucedidas ou inventar desculpas como: “eu não merecia aquilo mesmo!” ou “eu fiz determinado passo errado, se tivesse feito de tal forma teria dado certo, sim”

E aí eu começo a falar de comportamento supersticioso.
Temos eventos (ambientais ou comportamentais e ambientais)que são dependentes, a isso nomeamos contingência. É o famoso”se…então”, como por exemplo: Se eu penteio o cabelo então ele fica desembaraçado. Se trabalhamos, então ganhamos dinheiro.
O “se” é um aspecto do comportamento ou do ambiente,o “então” é a consequência.

Ok, agora imagine que quando você abre a torneira cai um raio na mesma hora. O raio caiu por que a torneira foi aberta? Bem, nesse caso ocorreu uma coincidência, pois abrir a torneira não tem relação de dependência com o cair do raio. Da mesma forma que não há o “se… então” quando você se concentra para que o ônibus chegue, ou quando faz uma simpatia, ou quando reza. São coisas independentes que, como disse antes, vez ou outra pode ocorrer de coincidirem (e nós tendemos a esquecer quando não coincide).

Vamos supor que Maria passe embaixo de uma escada e caia um vaso de tinta na sua cabeça. Bem, se tinha uma escada lá e alguém pintando o muro, nada de estranho a lata cair na sua cabeça. Mas suponhamos que Maria não pensou assim, mas que foi o fato de ela ter passado embaixo da escada que fez com que caisse a tinta, ela passa a achar que passar embaixo de escadas dá azar. Ela relaciona o “passar embaixo da escada” com o “acontecer algo ruim”, sendo que esses dois eventos são independentes, foi algo acidental. Isto é a superstição.

Seria realmente muito legal que minhas “premonições” fossem verdadeiras. Entretanto, o fato de eu desejar que sejam não as torna verdadeiras. Na verdade, só me dificultariam “quebrar o encanto” e ver o que realmente aconteceu: apenas uma coincidência, que tinha a mesma probabilidade de acontecer que outras coisas.

Referência:

Souza (2001). O que é contingência? Sobre Comportamento e Cognição: aspectos teóricos, metodológicos e de formação em Análise do Comportamento e Terapia Cognitivista. Banaco, R. A., & Santo, A. São Paulo: ESETec.

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uma resposta solta

hoje vou postar 1 vídeos que gosto muito:
The Backwater gospel (uma animação muito muito muito boa)

e a resposta a um desafio solto (?):

“Então prove que deus não existe!”

Como muitos já sabem, isso é falácia de inversão do ônus da prova. Mas como ainda tem gente que fala esse tipo de coisa, então convém explicar e espero me fazer entender.

Quem tem que provar algo é quem alega. Eu não fiz alegação alguma.
Pq?  imagine que eu diga que sei voar.


Eu “avuando” =D

Você, na sua vida inteira, só viu gente voar em sonho, em ficção e manipulação de imagem, logo, vai duvidar. Eu falo isso com muita convicção, porém, obviamente, isso não será motivo p/ que venhas a acreditar. Eu tenho que provar. Tirar uma foto ou gravar um vídeo não é suficiente, há várias formas de se manipular, requer então uma prova mais extraordinária. Eu tenho que voar na sua frente, p/ você ver. Se eu digo: “mas que afronta você duvidar! eu, que sou tão influente nessas coisas de voar! eu tenho palavra! você deveria acreditar só pelo fato de eu dizer, sem ter provas!”  Bem, isso ainda não vai te convencer que eu posso voar, certo? certo. E logo vais concluir: se ela não mostra é pq não sabe. Mas se eu sei e quero que acredites é só eu te mostrar e fica tudo certo (e você dizer que eu TENHO que mostrar para que acredites não é afronta nenhuma. É seu livre exercício de ceticismo saudável).

Agora façamos de conta que inversão de ônus da prova não é falácia. Prove que os 330 milhões de deuses hindus não existem.

“Prazer, Vishwakarma. Você não pode provar que eu não existo. =D”

Não pode? então eles todos existem (argumentum ad ignorantiam).
Uai, tá estranho isso, não é? Nós nunca vimos nem foi mostrada evidência alguma dos deuses egípcios, nem de Allah, nem nenhum dos deuses hindus, então como vamos concluir que eles existem?

Pois bem, o universo é muito vasto e em grande parte desconhecido para que alguém possa afirmar, com toda certeza, absoluta 100% que algo não existe. Seria desonesto, afinal, para algo não existir é necessário que não se encontre em nenhum canto do universo. Como não conhecemos tudo, mas também, como nenhum desses seres até hoje deu as caras, muitas pessoas não acreditam na existência de tais seres, nem por isso se pode dizer que não existem.

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