Category Archives: ceticismo

Mais um charlatanismo quântico

falarei sobre esse post aqui no site da psicóloga Marisa Lobo.
Vamos aos comentários:
a começar o título de efeito:

ISTOÉ| Cientísta Polonês Mostra que Deus existe- e ganha Prêmio.

Sabemos que existência de deuses é extremamente debatida ao longo da história da humanidade. Então colocar “cientísta” “mostra” e “deus existe” é um título bem atrativo. Colocar um “ganha prêmio” é como se fosse uma confirmação de que ele está certo “afinal,ganhou até prêmio!”.

“Através de leis da física e da filosofia, pesquisador polonês mostra que Deus existe e ganha um dos mais cobiçados prêmios”

Não entendi se foi dito separadamente “leis da física” e “filosofia” ou junto “leis da física e da filosofia”, se foi o primeiro, filosofia e física tratam de assuntos diferentes e, quando falamos do método científico, não são as questões filosóficas que são usadas como prova, elas são usadas para discutir os métodos, mas não são a prova, ou seja, é algo anterior à ciência. Se foi o segundo, bem, leis da filosofia? rly?
Sem contar que deus é discutido em filosofia não em física (como querem algo imaterial sendo discutido por… Física?)

“Ocorre, porém, que Keller não é um menino, mas sim um dos mais conceituados cientistas no campo da cosmologia e, igualmente, um dos mais renomados teólogos de seu país.”

esse “um dos mais conceituados” pode servir p/ apresentar o cidadão e, além disso,  levar o leitor a pensar “nossa, então ele sabe do que tá falando!”.

 “O resultado material é que na semana passada Keller recebeu um dos maiores prêmios em dinheiro já dados em Nova York pela Fundação Templeton, instituição que reúne pesquisadores de todo o mundo: US$ 1,6 milhão.”

Também ajuda a mostrar que ele só pode estar dizendo algo relevante, afinal, ninguém dá tanto dinheiro a outra pessoa por pouca coisa…

“O que é a “Teologia da Ciência”? Em poucas palavras, ela se define assim: a ciência encontrou Deus.”

Onde? não vi nenhuma publicação científica me mostrando isso (já que ele fala em nome da ciência acho que é onde eu deveria encontrar tal informação)

“. De volta agora à questão da formação do universo, há perguntas que a ciência não responde, mas o universo está aqui e nós, nele. Nesse “buraco negro” entra Deus.”

Não saber hoje responder uma pergunta não significa que nunca saberá. E “nesse buraco negro entra deus” não é falácia do deus das lacunas? há um certo perigo em utilizar isso quando se fala de ciência…
Deus das lacunas é uma falácia lógica e uma versão teológica do argumento da ignorância. Caracteriza-se por responder questões ainda sem solução com explicações, muitas vezes,sobrenaturais, que não podem ser averiguadas” by wikipedia

“Essas questões, sem respostas pela física, encontram um ponto final na religião – ou seja, encontram Deus.”

Não sei uma resposta FÍSICA então foi deus? e qual deus é esse? o dele? que coincidência!

” Keller afirma a possibilidade de encontrarmos Deus nos conceitos da física quântica, onde se estuda a relação dos átomos.”

Mais um querendo achar deus escondido entre léptons e quarks no fantástico mundo quântico…  aqui falei do charlatanismo quântico, esse é mais um.
“Dependendo do pólo de atração, um determinado átomo pode atrair outro e, assim, Deus e ciência também se atraem. “E, se a ciência tem a capacidade de atrair algo, esse algo inexoravelmente existe”, diz Keller.”

Não entendi pq a atração entre dois átomos é comparada a deus e ciência.

Lembremos que esse deus defendido muito provavelmente é um deus, se não o judaico-cristão, um entendimento próximo ao cristão. Pq será que é justamente esse?
pq os outros “é claro” que não existem? ou pq esse, no mundo ocidental, é o mais conhecido e,assim, seria muito mais aceito? e se fosse Krishna? e se fosse Allah? Não iria ter a mesma aceitação, não é?

Nessa lenga lenga toda NADA é realmente explicado. Na verdade, tantos outros já lançaram essa falácia do deus das lacunas, só não ganharam esse dinheiro todo pq não usaram um rótulo de cientista p/ escrever um livro.

Vale lembrar; nem tudo que um dito cientista fala pode ser jogado na conta da ciência. Por exemplo, ele ser cristão não interfere em nada na condição de cientista. Ele pensar que deus existe se refere à fé dele, mas isso não significa que “a ciência disse que existe” e sim ele, enquanto crente. Mesmo caso da psicóloga dona do site. Ela ser cristã é uma coisa e ser psicóloga é outra, e as duas, eticamente, não deveriam se misturar na prática terapêutica.  Não são coisas excludentes mas também não são coisas que vão se mesclar.

Portanto, queridos, alguém dizer que é cientista não significa que “sabe do que tá falando” ou “tudo o que fala é relativo à ciência”, p/ o que ele diz quando se trata de ciência ser aceitável é preciso que ele mostre evidências para tal, coisa que ele não fez.

AAAh, quem é esse Keller? procure no google que só vai achar referência aos trabalhos do mesmo em sites brasileiros. Pq o nome dele é Heller. Sim, ninguém que reproduziu a matéria sequer foi atrás de saber a veracidade da mesma.

“The John Templeton Foundation, which awards grants to encourage scientific discovery on the “big questions” in science and philosophy, commended Professor Heller, who is from Poland, for his extensive writings that have “evoked new and important consideration of some of humankind’s most profound concepts.”” http://www.nytimes.com/2008/03/13/science/12cnd-prize.html?hp

Errr… onde tá o “premiado por mostrar que deus existe”? eu não achei…
Pelo visto o próprio Heller teve sua fala deturpada. No caso o charlatanismo parece nem ter partido dele e sim da IstoÉ, que foi quem divulgou a matéria. Ou seja, pode ser que eu tenha dito tudo isso sobre algo manipulado pela revista, não sendo exatamente esses os argumentos utilizados por Heller.

Que “coisa feia” mentir p/ as pessoas dessa forma! por isso ceticismo é importante inclusive p/ crentes. Por mais que possa ser agradável ver uma afirmação como a da matéria, é muito melhor ir atrás de saber até onde ela é verdadeira antes de divulgar (coisa que a psicóloga não fez).

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Quem tem medo da modinha do neo ateísmo?

acho que já vi um título parecido em algum lugar… enfim, o que são modinhas?
São aquelas “ondas”, na verdade, tsunamis, que quando vêm atingem vários grupos. São na maioria das vezes “cool” e de uma atração que é difícil determinados grupos propensos resistirem. Geralmente começam como que não quer nada e depois quando vemos já estão em todo canto.

E assim acontece com muita coisa. Os mais conhecidos são os musicais, punks, emos, coloridos, indies, funkeiros, e outros. Mas tem também em outras áreas, como pseudo: cults, revolucionários, comunistas, anarquistas, veganos…

Antes de falar de coisa ruim, vamos falar de coisa boa. Sim, modinhas tem seu lado bom (ou ótimo!). Algumas coisas que viram modinha não são ruins, desprezíveis ou descartáveis. São coisas boas que,sabe-se lá pq, uma hora cairam no gosto de muita gente. Essas modinhas podem servir justamente p/ chamar atenção p/ algo que é realmente legal e, depois que passa, essa coisa legal fica.Uma ideia, uma roupa, uma música, um escritor, um diretor… Esse destaque momentâneo e até falso pode render boas descobertas.

Mas e quando vai p/ o lado ruim?
É o que tenho visto com neo ateus: gente se dizendo mais racional que crentes, querendo acabar com as religiões, se achando porta voz da ciência…

e sabe qual a contradição? o que esses metidos a mais racionais usam de falácias NÃO É POUCO. Muitas vezes copiam falas de outros e sequer se perguntam se aquilo faz sentido, se aquela informação é verdadeira, se aquele vídeo tem alguma boa base ou se é mais um charlatanismo. E isso não me parece ser racional…
Charlatanismo e gente que quer se aproveitar existe em todo canto, basta ter quem acredite. Então não pense que por se dizerem “do lado da razão” que todos serão honestos e se preocupam em passar informações verdadeiras pq NÃO é assim. Muitos só querem enganar com meias verdades, verdadeiros lobos em pele de cordeiro, dizendo que os outros que são manipuladores p/ que você não perceba quando é manipulado por ele. Como diz uma professora minha: não nos enganemos…

Sobre o acabar com as religiões, já falei aqui, não adianta. Só promoveria brigas (piores que as que existem), e não resultaria de muita coisa. Alienação existe de onde menos se espera. Sabe aquele pastor lá que rouba o dinheiro dos fiéis? ele é tão ridículo e manipulador quanto neo ateus que vendem uma ideia como verdade e os “seguidores” aceitam sem questionar. Instituições manipuladoras, controladoras, alienadoras, coercitivas, existem aos montes, a religião é apenas mais uma. Acabar com ela vai dar p/ muitos a sensação de “agora sim somos livres” mas, hehehe, é essa a intenção: você achar que os outros estão presos para que não veja a corrente nos seus pés…

Sobre a ciência, a não ser que a pessoa FAÇA realmente parte dela, não fala por ela. Vejo muito por aí gente se colocando como “da ciência” sendo que não chega nem perto disso. Aliás, mesmo que faça parte, nem tudo que disser pode ser jogado na conta da ciência.
Lembremos que ciência trata de assuntos naturais, procura saber o que é, por que é daquele jeito, quais as condições que aquilo acontece, etc. Mas não cabe a ela dar sentido às coisas.
Se começa a falar de ciência num debate filosófico já está deslocado, pq são duas coisas diferentes que parte de lugares diferentes que na maioria das vezes não faz sentido misturar.

Neo ateus NÃO são iluminados que têm a missão de levar a luz para os “cegos crentes”. Na verdade, esse negócio mais me lembra aqueles que batem na minha porta num domingo de manhã querendo me converter… P/ quem ficar ofendidinho, sorry,mas essa é a verdade… Mais um paradoxo: gente que não gosta de quem tenta converter e é exatamente isso que faz. Só num sai batendo na porta de ninguém, mas chega perto.

Todos têm liberdade de expressão para falar o que quiser, seja algo construtivo ou ridículo. Mas lembremos: tudo isso vai gerar uma resposta e o tipo de resposta que vai gerar depende da maneira que você usar sua liberdade de expressão. Se você ataca alguém a reação mais esperada são ataques. E não adianta reclamar que tão querendo tirar sua liberdade. Tirar a liberdade ocorre quando impede-se o outro de falar e não quando respondem com opiniões contrárias (e com o mesmo nível de agressão).

Um pouco de ceticismo não faz mal a ninguém. Principalmente antes de entrar em uma discussão chamando os outros de irracionais sendo que a própria pessoa age irracionalmente quando acredita quase que cegamente nas fontes que usa (mesmo que não confessem, a maioria age assim).
Questionar é preciso. Quanto mais uma ideia te agrada menos você duvida e isso aumenta a probabilidade de ela te manipular. E como certas ideias são sedutoras, tão revestidas de verdade, tão bem faladas… É por isso que muitos saem por aí reproduzindo absurdos sem sequer filtrar as informações.

P/ finalizar, uma coisa a se ter cuidado: o ônus da prova é de quem afirma/garante algo. Portanto, é diferente dizer que não acredita que exista algum ser superior e dizer com todas as letras que este (ou estes) não existe(m). Simplesmente pq você NÃO PODE provar que não existe, logo, não pode garantir tal coisa (o que também não significa que exista(m)).

Maasssss, voltando às modinhas, até essa de neo ateísmo pode ter um lado bom. Retirando o fato de que a maioria dos neo ateus são tidos como escória do ateísmo, essa onda pode possibilitar que mais pessoas conheçam o ateísmo (além do neo ateísmo) e que realmente se sintam à vontade com essa ideia e busquem se aprofundar no assunto (além das briguinhas ridículas que o neo ateísmo muitas vezes causa), bem como descobrir se é o melhor p/ si.

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O inferno são os outros

É com essa frase de Sartre descontextualizada que começo a falar de inferno. E mais, do “não atribua aos outros um inferno que é seu.”

Não raro vejo gente dizendo que ateus/agnósticos/céticos/deístas/panteístas/qualquer teísta de crença diferente  vão para o inferno.
Isso chega a ter graça, ser ameaçado de ir p/ um lugar que nem se acredita existir. Tipo assim “você vai p/ o mundo inferior, morar com Hades” haha sério?

Antes de me exorcizarem, vou contar um pouco da história do demônio/diabo/Lucifer/cão/sujo e afins:

Na visão monista, deus é o criador de absolutamente tudo, sendo bom ou mau.
Em VI aec encontramos Zoroastro, um profeta persa com visão dualista. Este indivíduo escreveu sobre Mazda e Arimã , príncipe da luz e das trevas, respectivamente.
Em uma visão semi-dualista há um deus soberano mas que não é o “culpado” pelo mal.

O judaísmo é fortemente influenciado pela demonologia, angelologia e escatologia do zoroastrismo. Teve assim aa origem do nome “satan”, que significa “o adversário” “o acusador”, uma força poderosa oposta a Yaweh. Ele não é um anjo caído, é alguém designado a acusar os pecados. O inferno, sheol, é um lugar de não existência, não consciência, e não um lugar de punição. Não é eterno.

No cristianismo Lúcifer apareceu como sendo um querubim, o mais belo, o portador da luz, a estrela da manhã. Ele quis ser como deus e foi por isso exilado dos céus,tornando-se um anjo caído. Esse conceito deriva do satã judaico e do conceito de demônio grego, mas não é o mesmo que estes. O inferno é quase sempre representado como um local de eterno tormento e sofrimento.

No islamismo Iblis não era um anjo mas um Jinn, que tinham livre arbítrio como humanos. Ele recusou-se a ajoelhar perante deus e por isso foi condenado. O inferno é também uma condição eterna, com sete portões de entrada, onde há muito sofrimento.

Lúcifer, já denominado também como diabo, era considerado um ser que pode assumir a forma que desejar (ou seja,cuidado que ele pode estar do seu lado); aparência física derivada de figuras divinas da antiguidade,não necessariamente más, o reino sendo muito parecido com Tártaro, onde vivia Hades irmão de Zeus. Era o mundo inferior (inferno=inferus, que está por baixo) onde havia cérberos, humanóides ,monstros, demônios…  O conflito com deus deriva do Zoroastrismo.

Durante a Idade Média ele ganhou a aparência de asas de morcego,pata de bode,chifres,associação coma cor vermelha… aqui uma lista dos 10 demônios que atormentavam o povo da Idade Média
E nessa época também começou a “demonização” dos deuses dos outros. Qualquer um que não fosse Yaweh era demonizado.

Lembremos da Santa Inquisição em 1299,iniciada por Gregório IX com o objetivo de punir os hereges que não seguiam o cristianismo. Eles eram considerados possuídos e, por isso, eram levados a cometer atos heréticos.
Com o iluminismo o demônio fica em baixa, pelo aumento das explicações científicas e pelo antropocentrismo.

Atualmente há variância no que significa inferno e demônio para diferentes crenças. Algumas pregam como algo real, um lugar e um ser realmente palpáveis, outras como um lugar real mas não como dizem ser (com fogo e tal), e outras dizem ser apenas algo figurativo, uma metáfora para explicar melhor uma situação de “culpa eterna”.

Para algumas pessoas é importante haver a figura de deus e do demônio para personificarem o bem e o mal, de modo a tornar próximo das pessoas os limites  da ética e da moral. Como se, caso fosse retirado, as pessoas perderiam limites (já que não haveria um deus p/ julgar nem um inferno como condenação) e cometeriam crimes hediondos.

Não vejo essa sequencia ausência de deus> niilismo. Culturalmente já temos contato com uma série de valores morais, tradições e costumes. Não só a instituição religiosa faz coerção, a família, por exemplo, também faz (sendo influenciada ou não pela religião), o fato de uma pessoa não se guiar pelo código de moral da religião não necessariamente a fará virar niilista, pois a coerção, os conceitos de moral (mesmo que os religiosos, por já estarem incluidos na cultura) continuarão externos ao indivíduo, mesmo que este não veja esse externo vinculado a um ser superior (ou que esse ser seja um diferente).
Ou seja, caso fosse retirado (é estranho pensar nisso como algo repentino), as pessoas não necessariamente virariam niilistas, por já estarem inseridas num determinado contexto com exigências e regras externas ao sujeito, ainda sob influência da religião (influencia que não pode ser retirada, muito menos imediatamente como pensam alguns).

Nos últimos tempos tiveram que começar a dizer que “o deus é o mesmo”, creio eu que para minimizar a discriminação. Não, o deus não é o mesmo, nem em história, nem em promessas. Mas isso não significa que os deuses dos outros podem ser demonizados e não é nada respeitoso nem digno sair por aí ameaçando quem não tem nada a ver com isso ao inferno pela crença diferente ou não crença. Não por essas pessoas terem medo ou algo assim, e sim que,pelo fato de não acreditarem, certamente elas não estão a fim de perder seu tempo ouvindo pregação. Afinal,modificando Sartre, o inferno é dos outros. (:

Hades approves this post =D

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Ciência nas escolas

Estava outro dia a conversar e ler sobre o ensino de ciência e o quanto isso influencia na visão que as pessoas têm do assunto.

Eu, por exemplo, tive um tanto de sorte. Desde criança bem pequena fui incentivada à curiosidade do “como funciona” e também a desenvolver a coordenação motora. Na escola muitas vezes havia mostras de ciência, trabalhávamos quase o ano todo para isso, e em aulas aprendíamos na prática como várias coisas acontecem. No ensino médio tive a sorte de ter ótimos professores, que fizeram o máximo com o mínimo que tinham disponível. E hoje estou aqui, fazendo Psicologia mas desejando viver 300 anos p/ ter tempo de fazer mais coisas, tendo o estudo como um dos maiores passatempos.

Mas mesmo tendo acesso às mesmas coisas que eu, sempre vi colegas com imenso desprazer quanto a esses assuntos. Aliás, escola e estudo são sempre chamados de chatos e inúteis, a coisa piora quando os alunos recebem assuntos que nunca fazem sentido, que são completamente deslocados das vivências, que não se mostram realmente úteis.
Uma parte vem do não incentivo dos pais. Minha mãe bem sabe o quanto eu questiono a tudo. Quantos pais querem filhos com opinião própria? não é p/ qualquer um lidar com isso. Mas os que o fazem não devem imaginar o bem que promovem.
Pessoas que não foram incentivadas podem aprender a serem curiosas na escola, pq a escola pode ensinar com êxito muito do que os pais não ensinam. Entretanto a ladainha se repete: quantos professores desejam alunos que questionem? questionar é ver como igual, ali, do lado, um aprendizado mútuo. Quantos professores querem admitir que podem aprender com seus alunos? felizmente passei a ver mais professores assim com o passar do tempo. E assim se repete o mantra de pessoas alheias ao aprendizado como um todo, achando tudo muito chato, tudo muito sonífero, tudo muito difícil, tudo muito inútil.

Como achar legal se TODO mundo disser que é chato e fizer questão de que seja assim? como achar fácil e se dedicar quando se depara com professores colocando medo, exigindo coisas que não foram capazes de ensinar efetivamente? como ver utilidade se as coisas colocadas só são vistas dentro da escola e depois desaparecem?

 

Criticar e apontar defeitos é bem fácil, então qual a solução que proponho?
Vou partir da escola. Crianças adoram coisas “oooohh”, que tal vez ou outra mostrar algo na prática? coisas simples como mostrar como ocorre a erosão ou que o período de um pêndulo independe da massa. Crianças e adolescentes ficam entediados facilmente.

Isso mostra que se for p/ ficar 2 aulas só falando é melhor não falar pq não vão aprender e a culpa não vai ser deles: falta motivação. Alguns assuntos são muito densos, por isso filmes, músicas, brincadeiras, experiências ajudam no aprendizado. Já viram o Donald no país da Matemágica? é um ótimo exemplo. Qualquer um gosta de ter suas capacidades reconhecidas e quando isso acontece acabam por produzir ainda mais. Algumas vezes o que chamam de dificuldade de aprendizagem é somente uma falta de incentivo, falta de reconhecimento, desprezo das capacidades, tudo isso baixa a auto-estima e o aprendizado é completamente desmotivado.

Mas professores devem também estar motivados. Como fazer algo bem feito quando se tem que trabalhar em várias escolas p/ garantir um salário digno? Além disso há a questão de: como ser um bom professor se a formação do mesmo foi precária?

Ciência ainda é vista como coisa distante, que só um seleto grupo de “escolhidos” têm acesso, quase uma seita secreta.

Eles fazem algo e o povão só compra o resultado sem ser incentivado a perguntar o pq é daquele jeito. O rótulo de “cientificamente  comprovado” já serve p/ sanar qualquer mínima tentativa de ceticismo que possa haver. É preciso formar curiosos, pensadores, questionadores, céticos e não pessoas que sabem nomes, datas e fórmulas p/ provas e sequer sabem o significado disso. P/ quem, depois do 1º grau, não vai fazer algo relativo à ciência, artes, filosofia, matemática, não vai ser útil saber quem foi uma ou outra pessoa, mas a curiosidade, a vontade de ir além, o não aceitar só pq alguém falou que era daquele jeito permanecem e isso é o que diferencia uma sociedade que pensa de uma sociedade onde a maioria é ensinada a obedecer.

Quando se aprende ciência descobre-se que ela não é o poder absoluto, nem a última palavra, não depende da “afinidade pessoal” p/ decidir algo e que muda e DEVE mudar sempre, se renovar, que cientistas são crianças grandes querendo descobrir respostas para os mais loucos “porquês”.

E quando se descobre isso percebe-se que não é algo distante, que dá p/ fazer até no dia a dia, que podemos nos sentir parte disso. Se  as escolas conseguirem passar essas simples ideias eu ficaria satisfeita. Os talentos despertados dependem do ensino que recebem pois as pessoas só vão passar a se interessar de verdade quando descobrirem que é algo alcançável e mais, que pode ser divertido. Cientistas não são magos, remédios ou um GPS não surgem de milagres e sim como fruto de muito estudo. É justamente isso que, p/ mim e p/ muitos, torna tudo tão fascinante (mais que qualquer tentativa de explicação sobrenatural).

P/ ensinar ciência (como todos os outros componentes curriculares) é preciso paixão pela área, até pq, não tem como querer que os alunos se interessem por algo que o professor parece estar sofrendo p/ transmitir.

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Comportamento supersticioso e wishful thinking

Você já reparou que algumas vezes nós pensamos em algo, como por exemplo: melhor não ir que num vai dar em coisa boa. E realmente acertou? O que é isso? premonição?
Você já se pegou fazendo certos rituais, como por exemplo dar pulinhos, não passar por certos lugares, usar a mesma peça de roupa em situações semelhantes pq essa peça deu sorte antes, ou fazer provas coma mesma caneta e afins?

O primeiro é chamado de wishful thinking, ou algo como pensamento guiado por desejo. O segundo é o comportamento supersticioso.

“Mas Jheh, eu acerto sempre nas premonições!”

Eu também! é comum eu estar com sono e não ir p/ alguma aula e depois descobrir que não teve aula (sempre brinco: antes de irem p/ a aula, me liguem p/ saber as previsões do dia). Mas isso não é premonição. Eu sabia que havia a chance de não haver aula, por exemplo. E nem sempre eu acerto, na verdade, as probabilidades são as mesmas. Se a gente para p/ pensar em todas as “previsões” que fazemos, vamos perceber que, aleatoriamente, acertamos umas e erramos outras tantas. Mas como o acertar é o que nós vemos como o desejável, acabamos esquecendo das vezes que erramos. Quantas vezes levamos guarda-chuva e não chove? e quantas vezes esquecemos e chove? Mas pq será que só lembramos das vezes que, com uma premonição, nós levamos o guarda-chuva e realmente choveu (enquanto os outros se molhavam) ou o contrário, todos levaram e nós não? Pq esse é o desejado. Nós queremos que as previsões estejam certas, então quando erramos nós descartamos.
A mesma coisa uma simpatia ou uma oração: umas vezes vai dar certo e muitas vezes não dar em nada, mas como queremos que dê certo a pessoa vai ou esquecer das vezes mal sucedidas ou inventar desculpas como: “eu não merecia aquilo mesmo!” ou “eu fiz determinado passo errado, se tivesse feito de tal forma teria dado certo, sim”

E aí eu começo a falar de comportamento supersticioso.
Temos eventos (ambientais ou comportamentais e ambientais)que são dependentes, a isso nomeamos contingência. É o famoso”se…então”, como por exemplo: Se eu penteio o cabelo então ele fica desembaraçado. Se trabalhamos, então ganhamos dinheiro.
O “se” é um aspecto do comportamento ou do ambiente,o “então” é a consequência.

Ok, agora imagine que quando você abre a torneira cai um raio na mesma hora. O raio caiu por que a torneira foi aberta? Bem, nesse caso ocorreu uma coincidência, pois abrir a torneira não tem relação de dependência com o cair do raio. Da mesma forma que não há o “se… então” quando você se concentra para que o ônibus chegue, ou quando faz uma simpatia, ou quando reza. São coisas independentes que, como disse antes, vez ou outra pode ocorrer de coincidirem (e nós tendemos a esquecer quando não coincide).

Vamos supor que Maria passe embaixo de uma escada e caia um vaso de tinta na sua cabeça. Bem, se tinha uma escada lá e alguém pintando o muro, nada de estranho a lata cair na sua cabeça. Mas suponhamos que Maria não pensou assim, mas que foi o fato de ela ter passado embaixo da escada que fez com que caisse a tinta, ela passa a achar que passar embaixo de escadas dá azar. Ela relaciona o “passar embaixo da escada” com o “acontecer algo ruim”, sendo que esses dois eventos são independentes, foi algo acidental. Isto é a superstição.

Seria realmente muito legal que minhas “premonições” fossem verdadeiras. Entretanto, o fato de eu desejar que sejam não as torna verdadeiras. Na verdade, só me dificultariam “quebrar o encanto” e ver o que realmente aconteceu: apenas uma coincidência, que tinha a mesma probabilidade de acontecer que outras coisas.

Referência:

Souza (2001). O que é contingência? Sobre Comportamento e Cognição: aspectos teóricos, metodológicos e de formação em Análise do Comportamento e Terapia Cognitivista. Banaco, R. A., & Santo, A. São Paulo: ESETec.

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uma resposta solta

hoje vou postar 1 vídeos que gosto muito:
The Backwater gospel (uma animação muito muito muito boa)

e a resposta a um desafio solto (?):

“Então prove que deus não existe!”

Como muitos já sabem, isso é falácia de inversão do ônus da prova. Mas como ainda tem gente que fala esse tipo de coisa, então convém explicar e espero me fazer entender.

Quem tem que provar algo é quem alega. Eu não fiz alegação alguma.
Pq?  imagine que eu diga que sei voar.


Eu “avuando” =D

Você, na sua vida inteira, só viu gente voar em sonho, em ficção e manipulação de imagem, logo, vai duvidar. Eu falo isso com muita convicção, porém, obviamente, isso não será motivo p/ que venhas a acreditar. Eu tenho que provar. Tirar uma foto ou gravar um vídeo não é suficiente, há várias formas de se manipular, requer então uma prova mais extraordinária. Eu tenho que voar na sua frente, p/ você ver. Se eu digo: “mas que afronta você duvidar! eu, que sou tão influente nessas coisas de voar! eu tenho palavra! você deveria acreditar só pelo fato de eu dizer, sem ter provas!”  Bem, isso ainda não vai te convencer que eu posso voar, certo? certo. E logo vais concluir: se ela não mostra é pq não sabe. Mas se eu sei e quero que acredites é só eu te mostrar e fica tudo certo (e você dizer que eu TENHO que mostrar para que acredites não é afronta nenhuma. É seu livre exercício de ceticismo saudável).

Agora façamos de conta que inversão de ônus da prova não é falácia. Prove que os 330 milhões de deuses hindus não existem.

“Prazer, Vishwakarma. Você não pode provar que eu não existo. =D”

Não pode? então eles todos existem (argumentum ad ignorantiam).
Uai, tá estranho isso, não é? Nós nunca vimos nem foi mostrada evidência alguma dos deuses egípcios, nem de Allah, nem nenhum dos deuses hindus, então como vamos concluir que eles existem?

Pois bem, o universo é muito vasto e em grande parte desconhecido para que alguém possa afirmar, com toda certeza, absoluta 100% que algo não existe. Seria desonesto, afinal, para algo não existir é necessário que não se encontre em nenhum canto do universo. Como não conhecemos tudo, mas também, como nenhum desses seres até hoje deu as caras, muitas pessoas não acreditam na existência de tais seres, nem por isso se pode dizer que não existem.

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Mecânica Quântica à la carte

Outro post com mais links que outra coisa. Formataram meu netbook sem me perguntar antes e perdi todos os livros, dentre eles meus volumes de introdução à mecânica quântica. Só tinha lido metade do primeiro. ): Enquanto não acho novamente, termos técnicos ficam p/ mais tarde.

O que é mecânica quântica?
É o ramo da física que estuda partículas no nível subatômico.

O que alguns místicos, espiritualistas, religiosos, charlatães (que querem atender à vontade que certas pessoas têm de terem suas crenças com a etiqueta “provado cientificamente” ) DIZEM que é a mecânica quântica?
O ramo da física (leu bem? FÍSICA) que vai provar coisas sobrenaturais e impossíveis, vai encontrar deus (não importa qual seja, mas de preferência um que renda dinheiro) escondido entre léptons e quarks no fantástico mundo quântico. Minhas fontes dizem que é perto de onde a Alice (a do país das maravilhas) encontrou com a lagarta do cogumelo que fuma narguile, vai vendo…

Apesar de serem partículas muito pequenas isso não significa de forma alguma que sejam partículas sobrenaturais. Até pq ainda continuamos na física. Se queres sobrenaturalidades não é nesta área que deves procurar.

 

Então, vamos aos links:
charlatanismo quântico
vídeo: quem somos nós refutado
Guia cético para assistir O Segredo
Guia cético para assistir Quem somos nós?
“Curiosidade” by Stephen Hawking
Se você é uma pessoa mística, que acredita em algo sobrenatural e queira provar isso cientificamente (lembrando que a ciência trata de coisas naturais,logo, não será sobrenatural), ótimo, vá atrás disso (e não fique reclamando que “os cientistas são chatos” por não estudarem o que você quer)! Mas, please, não fique pegando retalho de estudos e teorias para adaptá-los ao seu bem querer.

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Evolução e prepotência

Agora um post breve(mais com indicação de links que outra coisa), só p/ iniciar um assunto que há um tempo não leio sobre: a Evolução

“Mas Jheh, evolução é somente uma teoria, a bíblia conta uma verdade!”

Vamos organizar as coisas,ok? Teoria, em ciência, é diferente do senso comum, que trata como um “eu acho” ou um palpite.  Definição da skepdic:
” uma teoria (científica) é um princípio ou conjunto de princípios para explicar, organizar, unificar, e/ou compreender o sentido de um conjunto de fenômenos. ”

Teoria não é A verdade. Ao contrário, ela deve ser falseável.
Aí começo a falar da evolução. Não é “somente uma teoria” é uma teoria como qualquer outra científica.
A teoria é o que usamos para explicar, a mais conhecida hoje é a de Darwin. Por ser uma teoria científica, ela é falseável.

“Mas Jheh, se ela é falseável ela é errada, a bíblia não é falseável!”

Justamente por isso a teoria da evolução by Darwin é científica e a bíblia não. Algumas pessoas se ligam de forma absurdamente pessoal e sentimental à certas teorias e tratam qualquer um que vá contra isso (mesmo com ótimos argumentos) com desprezo e descaso, estes são os que considero, nessa ação, hipócritas.
Mas repetindo uma coisa que já falei: fechar os olhos para as falhas não faz com que elas deixem de existir. Dizer que é verdade também não faz com que vire verdade geral.

“É preciso muita fé para acreditar na evolução”

Já falei, a evolução by Darwin é falseável (tanto que hoje está sendo elaborada a Síntese Evolutiva Ampliada, que trás muitas refutações à TE by Darwin), mas dizer que é ridícula ou que é preciso fé ou algo assim não é lá uma refutação…

Aqui um link com alguns mitos propagados sobre a evolução.

 

“A TE fala que a vida surgiu do nada! ela exclui deus!”
A TE não fala da origem da vida e sim uma hipótese de evolução. E não exclui nem inclui deus  nenhum. Aliás, deuses não são assunto da ciência.

 

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respeito?

Uma das coisas que eu mais ouço falar em discussões é respeito. Ô coisinha que eu já estou cansada de ouvir! Pq? por ter sido tão banalizado que as pessoas adaptam o sentido ao que bem querem.
Para começar, apontem o erro do meu desenho:

Vamos agora dar uma olhadinha na constituição?

Art. 220º A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

§ 2º – É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

Com base nos direitos e deveres a nós garantidos concluo que o respeito está não no “não fale disso que num sei quem vai ficar magoadinho” e sim: “fale e deixe os outros falarem (e darem a resposta)”.
Eu particularmente não faço e não falo com os outros o que não permito que façam e falem comigo. Mas isso é questão de valores. [entretanto a constituição também garante a integridade do sujeito, em relação á intimidade, à honra e à vida privada. Ou seja, não é falar doa a quem doer, discriminação,por exemplo, não é algo que a constituição deixe passar batido.]

 

 

E, lembrem-se de uma coisa: PESSOAS merecem respeito: à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem. Por isso não me veem xingando, nem rebaixando, nem discriminando ninguém. Entretanto, IDEIAS e IDEOLOGIAS devem ser questionadas e isso não é falta de respeito, é exercício da liberdade que temos de nos expressarmos.
E NENHUMA ideia é intocável do tipo: “falem de tudo menos disso”.
Se você não gosta de questionar, ok, mas não pense que quem questiona está desrespeitando, pq não está.

[obs.: o desenho não retrata teístas x ateus e sim uma figura de autoridade, no caso religiosa (representando àqueles famosos discursos de doe 10% p/ deus) versus qualquer pessoa que questione tal figura de autoridade.]

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