Pq a marcha das vadias vai demorar de dar certo?

Estava pensando outro dia se essa coisa toda de marcha das vadias dará certo ou não. Minha conclusão é de que não dará, ao menos não agora e sem esforços.
Só p/ constar, vou focar mais na parte da visão das roupas curtas por tradicionalistas que na parte da violência sexual.

Mas p/ essa parte não passar despercebida, vou dar dois exemplos: Se a roupa tivesse ligação com “permissão p/ estupro”, muçulmanas nunca seriam violentadas e a maioria das mulheres que vão à praia (principalmente as que fossem sozinhas) seriam atacadas. Não é isso que vemos na realidade, então p/mim já fica bem claro que a roupa é só uma desculpa que usam p/ aliviar o agressor e culpar a vítima. O que me soa extremamente ofensivo também para com os homens,por tratá-los como animais desprovidos de racionalidade e auto-controle que vão atacar qualquer uma que saia com um pouco de pele mais à mostra, o que sabemos que também não é verdade.

Mas, pq a marcha das vadias não dará certo por si só? siga a linha de raciocínio:

1- uma pessoa é antissemita

2- judeus fazem uma marcha dos judeus p/ que antissemitas vejam que aquela discriminação não faz sentido

3- antissemitas continuam a ser antissemitas

 

E pq é assim? pq não basta judeus e outros dizerem o quanto aquele estereótipo não faz sentido, isso não convence antissemitas. P/ mudar o estereótipo de uma pessoa é preciso muito mais que um simples dizer que não é daquele jeito.
Por isso nem a das vadias e nem NENHUMA outra marcha dará certo por si mesma. Pq o objetivo das marchas é chamar a atenção. Se depois de chamar a atenção coisas mais sólidas não forem feitas, o trabalho é em vão e vira mais um carnaval fora de época (que nem fazem com a parada gay).
É claro que não é todo mundo que fica só no chamar atenção, mas é o que faz a maioria. E essa mesma maioria que age muitas vezes de forma contraditória no dia a dia.

Digo isso pq vejo muita gente que só vai p/ a marcha das vadias por gritaria, diz que não quer ser estuprada por usar roupa curta, sai “fantasiada” e depois que aquilo tudo acaba volta à vida normal de falar da roupa dos outros, de o quanto fulaninha usa roupa curta, de o quanto fulaninha não “se dá o valor”, de o quanto ela tem que “liberar aos pouquinhos”p/ não ficar mal falada ou então parte p/ o outro lado, não quer ser vista como vadia por usar roupa curta mas emite todos os comportamentos que geralmente as pessoas consideram como “de vadia”, ae como é que faz as pessoas mudarem de ideia se faz justamente o que elas esperam que faça?
De um lado entendo o pq disso: quando estamos em grupo podemos fazer coisas que nunca faríamos sozinhos.  Uma delas é andar de sainha e meia 7/8.
Do outro tais coisas só servem p/ deixar a marcha sem sentido e  virar só um dia em que as mulheres saem com roupinhas curtas  p/ serem avaliadas como gostosas ou canhões depois.

Mas Jheh, então como faz p/ dar certo?
Não tô dizendo p/ a partir de hoje mudarmos o guarda roupas p/ roupas com no máximo um palmo, nem dizendo p/ irmos à reuniões de trabalho com um decote até o umbigo. O que quero dizer é que,  ao invés de vestirmos qualquer roupa que já tenha um significado socialmente estabelecido e enfiarmos isso goela abaixo de conservadores, poderíamos mostrar que podemos ser inteligentes e competentes e mesmo assim usarmos uma roupa curta de vez em quando que isso em nada afeta o caráter ou a capacidade intelectual. Desmistificar o significado dado à roupa na prática.
Sim, é uma batalha cotidiana, mas que nunca deve vir como imposição. Não se ganha nada despertando raiva ou ódio dos outros. E chocar quase sempre gera aversão.

Um bom exemplo: mocinhas religiosas indo p/ a igreja. Todos bem sabem que usar saia no joelho e a gola quase no nariz não influi em NADA na atividade sexual de ninguém,

mas os bons costumes dizem que influencia. Ae as outras mocinhas religiosas que não gostam de andar assim e preferem roupas mais curtas são olhadas com reprovação. É claro que elas dão p/ todo mundo,não é? Não. O que essas mocinhas devem fazer para serem respeitadas? irem à igreja de espartilho,salto 15 e meia 7/8 com um lindo shortinho de rendinha? Bem, esse comportamento será visto como ataque de rebeldia, possessão, afronta, tudo menos como um “veja,minha roupa não significa nada do que vocês dizem”. Pq? p/ haver comunicação é preciso que uma pessoa fale e a outra entenda. Nesse caso não houve um entendimento,logo não houve comunicação. O que teve de errado? a imposição de uma ideia ainda nova. Quando entramos em território inimigo temos que decidir se vamos tentar convencê-lo das nossas ideias (mesmo que não passem a pensar do mesmo modo mas que entendam) ou se vamos partir p/ a briga. Convencer é vencer junto, partir p/ a briga sempre pressupõe um perdedor. Que provavelmente será a mocinha que é minoria.

“AAh Jheh, mas esse conservadorismo ferra com tudo!”  Pode até ser que em muitos casos sim, mas lembremos que conservador não é aquele que quer manter as coisas como estão a todo custo, e sim aquele que resiste à novidades que não vê funcionalidade ou futura melhoria. Nesse caso, se a mocinha simplesmente se rebela, os conservadores somente vão enxergar: “tá vendo, isso não é coisa boa, só confirma que a roupa tem a ver com o comportamento que ela emite”.

E aqui chegamos ao ponto principal: devemos conhecer nossos opositores (no caso,pessoas mais conservadoras), escolher nosso objetivo (no caso mudar o estereótipo de que roupas curtas significam vadiagem ou “quero dar”), e escolher a forma que vamos lidar com os opositores (para haver comunicação é preciso um jogo de convencimento).

Como faz isso? lembremos também que é uma coisa de cotidiano e não em grandes proporções. Por isso demora mais de se obter sucesso porém é mais eficaz (se todo mundo que partilhe essa ideia o fizer). Que tal ao invés de obrigar a tia beata a te ver de micro shorts e top e querer que ela mude a ideia de que a sobrinha é uma piriguete que num quer nada com a vida, num parte p/ uma coisa mais amigável? Tipo, no início maneirar na roupa e mostrar p/ a tia que é tão inteligente quanto alguém que viva de burqa, que sabe conversar, e depois a tia vai ver as roupas que a sobrinha usa mas vai lembrar que ela também tira boas notas, faz trabalho voluntário, sabe conversar com várias pessoas diferentes… Por mais que ela ainda pense que roupa curta=vadia, os comportamentos emitidos pela sobrinha não condizem com os comportamentos que ela define como “vadia”, e ela vai começar a perceber que não é “de um lado as santas e do outro as putas” ou “de um lado as que usam o cérebro e do outro as que usam os peitos”, e sim “uma mulher pode usar um tipo de roupa e não necessariamente emitir os comportamentos que eu esperado p/ quem use aquele tipo de roupa”.

Mas claro, isso é muito muito complicado, pq p/ cada pessoa que provoque esse conflito de roupas e comportamentos tem várias outras que reforcem o estereótipo. E esse reforço é bem mais visível que o conflito.
Da mesma forma que o exemplo usado do antissemitismo, pode sempre aparecer um judeu (famoso ou não) que faça o antissemita entrar em conflito com o que é por ele esperado de um judeu. Mas sempre que algum agir da forma que ele espera que haja ele vai dizer: “tá vendo? eu disse que judeu não presta!” e assim reforçar o estereótipo. O que acontece com o exemplo que gerou conflito? o antissemita responde: toda regra tem exceção, aquele foi apenas uma exceção.
O mesmo vai continuar acontecendo durante muito tempo com as roupas curtas. A sobrinha da beata ali em cima vai ser vista como exceção, pq a tia sempre vai encontrar trocentos outros exemplos que a façam pensar: “tá vendo? eu disse que quem usa roupa curta é vadia e num quer nada coma vida.”

Aí entram as lutas mais abrangentes, como as marchas. Pq vai começar a mostrar que há os que agem de acordo com o estereótipo mas há também muitos (às vezes até a maioria) que não aja de tal forma, e que estes querem respeito.
Essas coisas se repetem em outros casos,como na marcha da maconha ou até na parada gay: sempre vão existir os “maconheiros maloqueiros” mas isso não significa que todos sejam (nem que a maioria seja). Sempre vão existir os “gays depravados” mas isso não significa que todos ou a maioria seja. E são esses que se encontram fora do estereótipo que precisam ser ouvidos e respeitados.
Mas isso só vai acontecer quando o cotidiano parar de reforçar o estereótipo que as marchas e paradas tentam derrubar e quando as pessoas pararem de tentar enfiar suas ideias goela abaixo dos conservadores e passarem a mostrar na prática o pq do estereótipo estar equivocado.

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