Suicídio e os estímulos discriminantes

Já ouviu falar da “música do suicídio”? ou de livros que várias pessoas leram e suicidaram-se? ou filmes e cartas que aparentemente levaram as pessoas ao suicídio? E já percebeu como algumas vezes ouvimos falar de vários suicídios na mesma época?
Será que ouvir uma música ou ler um livro é capaz de levar alguém a se matar?

Bem, comecemos do começo, falando sobre o comportamento:

Estímulos discriminativos não causam o comportamento mas dão a “dica” de que, se o comportamento for emitido, muito provavelmente será reforçado. Com isso aumenta a probabilidade de, ao acontecer o estímulo, ocorrerem respostas específicas.
Isto é chamado em comportamentalismo de contingência de três termos.
Por exemplo, o telefone toca (estímulo discriminativo) você atende (comportamento) e alguém responde do outro lado (reforço). Você já aprendeu que se o telefone toca muito provavelmente ao atender alguém irá falar. Tanto que, quando cai ou fica mudo, nós sabemos que não é o comum. Caso sempre que um telefone tocasse, você atendesse e ninguém respondesse, a probabilidade de você continuar atendendo iria diminuir até ser extinto.
Mas a pessoa tem que ter alguma familiaridade com aquilo p/ que seja possível ela responder da forma como é esperado. Por exemplo, alguém que nunca viu um telefone e não sabe p/ que serve não irá emitir o comportamento de atender quando ele tocar, pq não é o tocar que faz a pessoa atender, esse é só um aviso de que, muito provavelmente, alguém estará do outro lado.

O que isso tem a ver com suicídio?
Bem, sabemos que muitas vezes, quando ocorre um suicídio, as pessoas deixam cartas. E muitas vezes também, quando esse suicídio é televisado, essas cartas são  divulgadas. Como por exemplo a do Kurt Cobain.
O conteúdo dessas cartas mostra na maioria das vezes como a pessoa estava se sentindo,  o que estava pensando e até motivos que a levaram a consumar o ato.
E o que tem a ver com estímulo discriminativo?
Como falei, o estímulo discriminativo torna mais provável a emissão de respostas específicas. As cartas divulgadas também podem entrar na classe dos estímulos discriminativos, mas não para qualquer um (já pensou? ler uma carta e se matar pq leu?) e sim para pessoas com grande potencial suicída.
Isso significa que não é a carta que CAUSA o suicídio, mas ela pode servir como estímulo discriminativo que aumenta a probabilidade de essa resposta (o suicidar-se) ser emitida por pessoas que já sejam potenciais suicídas.

Algo parecido ocorre com músicas, livros, épocas.

O livro Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), de Goethe. Tem um tom autobriográfico apesar de os nomes, locais e final serem fictícios. O protagonista suicida-se devido ao amor não correspondido.
Houve na época uma série de suicídios relacionados a esse livro.

Aliás, o  ultra romantismo foi chamado de mal do século não por acaso. Há a forte presença do desespero, desesperança, pessimismo, angústia e evasão na morte. Havia a necessidade por uma vida melhor que não podiam conquistar. Certamente um estímulo discriminante e tanto para potenciais suicidas.

Lord Byron

Falando em espíritos de época, os acontecimentos também podem servir de estímulo discriminativo para o suicídio. Como? por exemplo, a crise de 29, também não por acaso chamada de a grande depressão. O número de suicídios ocorridos em NY foi enorme. A crise deixou 25% da população sem emprego. Na quinta-feira negra (grande quebra) houve uma grande quantidade de suicídios por parte de acionistas ao descobrirem que perderam tudo o que tinham. O pânico estava instalado.

Há uma música húngara chamada Szomorú Vasárnap, em português Domingo Sombrio. Esta música, escrita em 1933 pelo pianista autodidata Rezsõ  Seress, foi associada a centenas de suicídios. É uma lenda urbana pois não há dados suficientes para tal afirmação.
Mas é possível que esteja relacionada aos suicídios? Sim, mas como estímulo discriminante e não como “ao ouvir a música vai se matar”. A música tem uma letra depressiva, uma ideação suicida forte, mostra a morte do amor. O compositor a fez após o término de um relacionamento. Depois ele e a namorada voltaram por um tempo. Em pouco tempo ela se suicidou e ele também (atirou-se de uma janela).

Outras músicas que frequentemente são relacionadas a casos de suicídio são:  Beyond the Realms of Death (Judas Priest);  Highway to Hell (AC/DC);  Suicide Solution (Ozzy Osbourne);  o disco The Wall (com as músicas Goodbye Cruel World e Waiting for the Worms); Shoot to Thrill (AC/DC).

Muitos pais quiseram processar as bandas por culpar a música pelo suicídio. Ok, sabemos que não é a música que leva ao suicídio, sabemos também que não é bom divulgar cartas suicidas para não servir de estímulo discriminativo. E, como já falei no post anterior, suicidas na maioria das vezes apresentam sinais, seja por ações ou por falas.
Sabemos também que as bandas têm direito de produzirem as músicas (mesmo que depois sejam censuradas). E que esses pais não repararam nos sinais que os filhos deram e culparam as músicas. Quem tá certo? os pais ou as bandas?
Deixo a resposta a vocês.
Penso o seguinte: a música é estímulo discriminante, por isso essas bandas têm milhares de fãs e nem a maioria deles se mata (nem mata ninguém). Suicidas dão sinais, que muitas vezes são desprezados como sendo frescura ou rebeldia (no caso do adolescente). Se houvesse atenção a esses sinais, prevenção, acolhimento e tratamento, garanto que grande parte desses suicídios não teriam ocorrido, mesmo com as músicas sendo ouvidas. Dizer que a banda é inteiramente a culpada é um tantinho de exagero.

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